U m a      E n t r e v i s t a 

Por Law Tissot

 

        Marco Muller é possivelmente um dos nomes mais importantes da história do underground de Rio Grande. Mais especificamente, no que diz respeito a história dos nossos fanzines e histórias em quadrinhos. Em 1984 ele esteve envolvido com o Grupo Mutação de Quadrinhos, uma união de alguns quadrinhistas rio-grandinos que desejavam editar uma publicação para participar da cena alternativa brasileira que despontava naquela época (meados dos anos 80), com fanzines sendo produzidos com muita intensidade nos quatro cantos do país. Essa produção lançava mão das cópias em xerox e distribuição pelos correios, de uma forma ainda bastante amadora, porém pioneira. Esse espírito criativo e entusiasta pautava as reuniões do grupo até que, naturalmente, em novembro de 1984 surgiu o primeiro número do fanzine Mutação

    A partir de então, Marco Muller não parou mais, até que num determinado momento se encontrou editando mais de quatro zines simultaneamente, com formatos e conteúdos diferentes, experimentais, poéticos, esteticamente provocantes. O próprio Mutação conquistou um respeito e admiração no meio, com colaboradores de peso como Shimamoto, Olendino Mendes, Mozart Couto, Watson Portela e Mike Deodato, sem falar no próprio time de artistas engajados com o underground que, obviamente, contribuíram com suas participações na vasta produção editorial conduzida por Marco Muller.

Areia Hostil: Como os fanzines entraram na tua vida?

Marco Muller: Cara, da mesma forma que entraram na tua, e isso tenho que fazer uma volta muito distante ao passado, quase ao princípio, aos nossos combates de Playmobil, nosso fascínio por Star Wars, já em 1979, nossas aventuras inimagináveis - sempre fomos muito criativos, e isso com certeza terminaria nos quadrinhos - Disney no começo, Marvel e DC, Watson Portela, Julio Shimamoto, Moebius, Heavy Metal... O sonho de produzir nossas próprias aventuras, nossos heróis e a descoberta de um montão de gente - pelo Brasil e até fora - que pensavam da mesma maneira que nós, lá por 1984... 1985... Isso era o máximo, era um novo mundo a descobrir, bons tempos aqueles em que algumas folhas xerocadas nos faziam viajar...

AH: O Mutação tornou-se um dos principais fanzines brasileiros dos anos 1980, com muitos artistas importantes participando. Fale-nos sobre isso.

MM: É que nós começamos o Mutação, eu, tu e o Rodnério, os três desenhando, então vocês deixaram a "bomba" nas minhas mãos, e eu não produzia quase nada com um monte de cartas chegando e pedindo novos números, me obriguei a pegar colaborações de todo mundo que mandava e a coisa virou uma "festa", mas também uma boa idéia, muita gente mostrou seu trabalho, cheguei a receber mais de vinte cartas por dia e a loucura de lançar uma edição com 138 páginas, foi o ápice da loucura, parei então e parti para edições alternativas, zines Leve Desespero, Gesto Estúpido...

AH: Os outros fanzines que tu editou também inovaram em termos de estética e conteúdos... Quais foram as tuas principais influências naquele período?

MM: Era tudo muito louco naquela época, fanzines chegavam de todos os cantos e formas, maneiras, muito rapidamente. Comecei a investir mais nos zines autobiográficos, que tinham um impacto maior cada vez que os lançava, mas me influenciou muito as produções do Wallace Vianna, começamos a trabalhar em conjunto devido as afinidades mútuas, até os últimos números de Gesto Estúpido e Logotipo. Sem esquecer Henrique Magalhães e tu, cara, com o X-Tro, sinceramente para mim aquela foi a fase mais marcante e a que sempre me vem a minha cabeça até hoje, tenho todos os números em meu arquivo pessoal...

AH: Editor, quadrinhista, poeta e vocalista da banda Película Suburbana. Você foi um verdadeiro artista multimídia. quais as melhores experiências em cada uma delas?

MM: Na verdade é tudo a mesma coisa, tudo é arte, inspiração. É como amanhecer a cada dia, instintivo, sem chances de ser diferente, não sei se me fiz entender, mas é como vejo, como me vejo produzindo...

AH: Você andou meio desaparecido da cena underground nos anos 1990, mas isso não significou um afastamento total da arte. O que aconteceu naquela época?

MM: Com alguns camaradas mantenho contatos até hoje, sei muita coisa por ti, algumas informações difíceis de conseguir, mas todo aquele pessoal dos anos 80, parece ter "desintegrado", sei que muitos continuam mas praticamente não se têm notícias. Embora sem produzir fanzines há mais de dez anos, continuei desenhando e desenhando, fazendo algumas exposições e tocando meus sites minha maior paixão nesses tempos de Emoções Virtuais, aonde coloco tudo que sempre curti, poesia, quadrinhos, música...

AH: O que está planejado para os próximos sites?

MM: Meu projeto atual é colocar atualizações o mais breve possível, e nisso tenho trabalhado todas as madrugadas, terá aproximadamente 50 links - ufologia, música, seriados antigos, quadrinhos, cinema, poesia - posteriormente pretendo disponibilizar todos meus fanzines para acesso, é um projeto maior, mas é um projeto...

AH: Para encerrar, o que tens a dizer a esta nova geração de fanzineiros e quadrinhistas?

MM: O negócio é fazer o que se gosta, cara. Como nós sempre fizemos, é uma "droga" permanente, o grande vício da minha vida careta que não traz qualquer conseqüência danosa, a arte simplesmente pela arte. Querer mais o quê, meu camarada?