Arte ou Indústria?

 

Por Gerson Witte - Professor de Artes Visuais. (09/10/04)

 

    Existem duas maneiras de se fazer quadrinhos.

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    Não estou falando de estilos, que são inúmeros, nem de técnicas, ainda maiores. Estou falando de uma postura em frente à criação de HQ´s. Uma é a da Indústria do Entreterimento, cuja visão visa a produção de grandes tiragens, em vários títulos para grandes massas, para baixar custo e dentro de uma fórmula, molde ou clichê pré-estabelecido. É o caso dos quadrinhos de super-heróis , dos mangás japoneses e dos quadrinhos Disney. A outra é a Nona Arte.

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    Mangás e revistas da Image foram criadas para se ler uma vez e ser descartável, para vender mais e mais. O único problema é que o descartável se transforma em lixo. Afinal, quem relê 10, 15 vezes um gibi atual dos X-Man? Mas não podemos esquecer do que é realmente a indústria de quadrinhos americana e japonesa: apenas uma máquina de fazer dinheiro, que apenas utiliza as pessoas para produzir riqueza em prol de investidores que muitas vezes nem lêem quadrinhos, mas que enxergam nas ações das editoras de quadrinhos um bom lugar para investir, e este quer retorno rápido, não boas histórias que vendem para poucos. Se não se adaptar e não der resultados, vendas, lucros, tá fora. Rua!

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    O que está abrindo o olho da galera é a convivência dos brasileiros produzindo lá fora com os gringos. Pergunta pra eles se amam desenhar pros americanos? Já vi muita entrevista que dizem apenas uma coisa: "Desenho porque dá dinheiro, pagam em dólares, mas particularmente acho um saco". E isto não acontece só por causa dos prazos desumanos, mas porque você não tem valor nenhum, é só um produto sendo comercializado, uma força de trabalho sendo muito explorada, produzindo uma história que não tem conteúdo, não permite a realização como artista. Certo, eles estão nos ensinando que para existir quadrinhos de qualidade no Brasil é preciso haver profissionalismo, mas para isto é necessário trabalhar numa indústria cultural, que é esquizofrênica, distante da realidade e que o trabalho artístico é apenas mais uma engrenagem descartável numa máquina.

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    Mas isto não é novidade. Nos anos 1950 e 1960 não existia produção de quadrinhos nacionais, simplesmente porque era muito mais vantagem comprar as tiras prontas dos "syndicates" americanos, que tinham qualidade, baixo custo e formou um público cativo, que, ao mesmo tempo, torcia o nariz pros autores nacionais. No governo de Jânio Quadros surgiu uma lei que exigia uma cota de produção nacional na produção de tiras, que propiciou o espaço para o Mauricio de Sousa e o Ziraldo venderem suas histórias para os jornais, mas tiveram que se adaptar a um público já acostumado com o estilo americano vigente.

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    Para fazer isso, tiveram que criar estúdios para atender a demanda de material que precisavam. Com relação ao Mauricio, ele pegou muito bem a idéia de estúdio e da produção em série de quadrinhos, para massificar a produção, garantindo com isso qualidade, bom preço e um constância no mercado, que é o que o público precisa. Admiro muito mais o Mauricio como o brilhante empresário que é do que como criador.

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    E como eu disse, ele escolheu um caminho e fez bem feito. Escolheu a indústria do entreterimento.

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    Claro que teve o trabalho de criação, etc., mas em sua estrutura filosófica este não é o mais importante, até mesmo porque a anos ele não desenha mais ou escreve HQ´s. A pergunta é, você sabe o nome do roterista da última história, do desenhista, do arte-finalista? Não há uma valorização do artista. Entendam, não é uma crítica, é uma constatação.

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    Quanto ao Ziraldo, não pensem que foi diferente. Na época ele contratou um estúdio e fez esboços detalhadas de cada um dos personagens da Turma do Pererê e eles desenhavam. Tive acesso a um manual destes com um desenhista que trabalhou com o mesmo na época. Por mais que ele seja um ícone nacional, sua produção foi feita em cima de moldes americanos. Mas ele trilhou também o outro caminho.

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    Pode-se também enxergar os quadrinhos como linguagem artística. É explorar suas particularidades, sua identidade, aquilo que a faz única, tanto como entretenimento como forma de expressão de uma artista. Os quadrinhos europeus conseguiram isso. Will Eisner, Frank Miller, Alan Moore, mesmo dentro da engrenagem da indústria conseguem isto, e o mais importante, Ziraldo conseguiu isto, ao abandonar a grande escala mas utilizar a linguagem dos quadrinhos para escrever belos livros que encantam os jovens.

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    Quadrinho-arte não significa que o mesmo tenha que ser chato, cheio de coisas enigmáticas ou criptografia. Quadrinhos como linguagem artística exige mais qualidade e um cuidado com o público muito maior, porque não o considera idiota. Uderzo faz uma nova edição do Asterix a cada 2 ou 3 anos, e vende horrores. Seu estilo próprio está lá, escreve, desenha, arte-finaliza (não mais os últimos), mas mesmo assim ficou rico. Lourenço Mutarelli, no Brasil, vende sua produção em livrarias e é respeitadíssimo escrevendo e desenhando de um jeito bem fora dos padrões, até mesmo porque ele era uma engrenagem de um estúdio e resolveu criar asas. Existem muitos outros exemplos.

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    Em outras palavras, significa dar nome, cara, identidade à sua produção, ou seja, criar. O Batman foi criado por Bob Kane, mas existiram milhares de artistas que o desenharam e o escreveram, alguns deixaram sua marca, mas a grande maioria nada mais fez do que colocar mais uma edição na banca, buscando o lucro para a Warner, que assim tem um personagem popular para poder avacalhar nos filmes.

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    A produção brasileira sempre viveu uma dualidade incompatível: Quer produzir quadrinhos como arte, mas deseja ganhar dinheiro como a indústria americana. Mauricio de Sousa escolheu um lado e criou uma indústria que dá dinheiro. Ziraldo tentou também a indústria, mas escolheu escrever livros com uma poesia fascinante, criando arte com a linguagem dos quadrinhos. Não existe o lado certo da moeda.

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    Qualquer um que produz quadrinhos, tem que responder a esta pergunta: Você enxerga as HQ’s como produto descartável de uma indústria de entretenimento ou como uma linguagem artística com uma sintaxe própria, a chamada nona arte?