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O Jardim Por Gerson Witte (XX/02/05) Estou com 30 anos. Descobri que, além de mim, tem muita gente perto desta idade que está produzindo quadrinhos no Brasil, tais como Lorde Lobo, JJ Marreiro e Vagner Francisco, só pra citar gente do Areia Hostil. Comecei a me perguntar o porquê e a explicação a que cheguei foi simples: Nós, os revolucionários de 30, temos saudades de boas histórias.
Adoramos super-heróis, essa idéia de super poderes, crescemos lendo os quadrinhos da Abril, nos maravilhando com aqueles quadrinhos pequenos em papel barato, sonhando em um dia ser grande pra fazer igual, e quando conseguimos os quadrinhos mudaram, os gringos começam a fazer diferente, bonitos, mas sem a mesma graça; e depois tem os mangás, os americanos que desenham como japoneses; e aquele tempo se foi... Rubem Alves fala sobre um jardim que ele construiu, feito de saudades. Diz ele: "que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos..." www.rubemalves.com.br/jardim.htm . Ele fala sobre jardins o que eu penso sobre quadrinhos. Minhas histórias são feitas de saudades. Acho que todos estamos fazendo isso, como o Nickel e seu super-herói da "era de prata" Ultrax; JJ Marreiro e sua Mulher-Estupenda, desenhada como na década de 1940; Val de Vagner Francisco; Topman de Lorde Lobo, etc. etc. Todos cultivados na saudades de um tempo que não volta por outros artistas, porque eles não podem sonhar nossos sonhos. É algo que nós mesmos temos que fazer, com fanzines, desenhando numa sobra de tempo após o serviço, desenvolvendo um roteiro enquanto brinca com o filho, pensando numa cena enquanto espera o sinal abrir. Sonhando, do nosso jeito, porque ninguém mais pode fazer pela gente. Eu morro de saudades da Legião dos Super-Heróis.
Ilustração: desenho de Lorde Lobo + montagem com imagens baixadas na net . |