O UNDERGROUND

NÃO PÁRA!

Por Law Tissot

                                                                          No dia 22 de janeiro de 2005, no espaço cultural ArtEstação, aconteceu o 1º Espraiar do Cartum Gaúcho, um evento que foi bastante divulgado por nós, aqui mesmo neste site. Você pode até conferir as fotos que publicamos nos Flagrantes Hostis... Na ocasião, fizemos o lançamento do Areia Hostil 11, aliás, os lançamentos das últimas edições do nosso zine já tem lugar garantido no calendário cultural da Ong ArtEstação.

                                                                           E, dentro da programação do 1º Espraiar do Cartum Gaúcho, aconteceu uma espécie de "mesa redonda", onde os artistas gráficos ali presentes puderam falar sobre seus trabalhos, dramas, sonhos e dores. Prometi para o Lorde Lobo manter a calma a respeito de minhas impressões sobre aquele evento. Mas na REAL, eu estou cada vez mais convicto que meu lugar não era ali. Mesmo assim eu fui, no mínimo para ser educado. Talvez para reencontrar meu amigo de velha data, Rodnério Rosa. Junto do Rodnério veio toda a excursão do pessoal da Grafar - Grafistas Associados do RS - ciceroniados pelo Wagner Passos, nosso ilustre chargista da imprensa oficial de Rio Grande.

                                                                          Foram longas horas, numa noite quente, com café e muita nicotina. Todos esses ingredientes para dar suporte aos discursos calorosos, que sabia eu, nunca iriam parar em lugar algum. E como poderiam? Masturbação coletiva em nome de nossos planos gráficos e existenciais funciona quando somos "meninos" pedidos em sonhos e ilusões. Mas convenhamos, chega um ponto em que temos que ser mais práticos. E parece que muitos ali presentes insistem em profetizar soluções, investimentos, estratégias, para ficar somente ali mesmo, no discurso. No blá-blá-blá. Por isso acredito que fiz a escolha certa: vou desenhar a Cidade Cyber até o último suspiro de minha vida underground. E o nosso zine Areia Hostil nunca vai acabar. Podem apostar. Já, os amigos que vieram para o 1º Espraiar do Cartum Gaúcho, acredito, reencontrarei-os no próximo ano para escutar tudo de novo: falta dinheiro, falta apoio, falta leitores, falta política, falta etc, etc, etc. Tudo isso também falta para nós do Areia Hostil. Mas em compensação, para o Areia Hostil não falta a energia underground, que nos mantém  ativos, mês após mês, lutando contra a maré, mas sem nunca desistir. Nós até fazemos discursos vazios, até choramos nossos dramas. Mas você sabe, desde janeiro de 2001 que estamos por aí.

                                                                          Não pense, que estamos sós. Claro que não. De um lado estão os chorões, do outro tem os que realmente fazem acontecer. E eles estão ao redor do planeta. Eu vou começar pelas ruas de minha própria cidade. Como eu amo o meu pequeno underground...

                                                                          O balneário Cassino, em Rio Grande, em alta temporada do veraneio, tem na sua avenida principal, um vasto espaço tomado pela galera que faz seus artesanatos. Entre os diversos tipos de artesões e "tias", grata surpresa: William Morales, da vizinha cidade de Pelotas, estava expondo seus trabalhos - desenhos, flyers, adesivos - e oferecendo esses excelentes fanzines Ludovico e Espírito de Porco. Ambos primam pelo mergulho no mitológico universo do Robert Crumb, com animais humanizados e a rebeldia típica do cotidiano urbano, deste século 21. Você que não mora por aqui, talvez tenha poucas impressões do que realmente sejam as festas de Rio Grande e Pelotas, onde a turma com suas camisetas pretas circula ostentando suas predileções filosóficas, estéticas e políticas com muita propriedade. Quando me sento na avenida, ao lado do William, para conversar com ele a respeito de coisas como essas - rock, punk, fanzines e RPG - fico tendo pequenas lembranças do que foi o 1º Espraiar do Cartum Gaúcho, e me perco rindo sozinho. William é um cara honesto, artista que segue lutando em prol dos seus sonhos gráficos. Ele até tem seus dramas. Mas não desiste, nem chora, nem faz planos sem sentidos. Ele desenha muito bem, seus roteiros funcionam. O fanzine, como um todo, é muito bem caprichado, com um visual essencialmente underground, reproduzido no bom e velho xerox. Eu poderia até publicar o endereço dele aqui para você pedir um zine dele pelos correios, mas acho melhor correr atrás dele pelas ruas da cidade. Pois é nas ruas que existe o underground... Siga o coelho branco.

 

 

                                                                             Quase é uma outra grata surpresa. Na REAL, é a melhor surpresa em nível nacional até agora, neste limiar de 2005. O Lorde Lobo me entregou todos os exemplares que ele tinha recebido pelos correios. Eu fiquei ali mesmo, babando naquilo tudo. Receber coisas pelos correios é ainda uma experiência fascinante. Lembra os anos 80 quando os milhares e milhares de fanzines que circulavam pelo país seguia assim mesmo, em envelopes pardos com selos reaproveitados. Mas nessa era de internet o que eu encontro mesmo são os velhos chorões com suas listas de discussões e computadores turbinados que não os levam para lugar nenhum. Não sei seo Quase é zine, revista independente ou qualquer outra coisa. Mas sei que a publicação tem um espírito incrivel, o humor é ótimo e pode-se ler de uma vez só, sem parar nenhum instante. Graficamente falando, é um passeio por releituras, que vão desde Basil Wolverton até o Angeli. Tem outras coisas que nos remete ao Maudito Fanzine da Animal, e outras tantas são essencialmente a marca registrada da própria publicação. Eu, que sou mau-humorado por natureza, recebi um banho de humor negro muito bem equalizado que me fez rir sem parar uma tarde inteira. Mesmo com todo esse ácido escorrendo pelas páginas, os caras seguem unidos, e pelo jeito sem choradeira, sonhos delirantes e masturbação coletiva. Hum... masturbação coletiva eu acredito que eles fazem, o resultado está publicado por aí.

 

                                                                            Não é que os correios me reservaram uma outra grata surpresa: La Bouche Du Monde, publicana na França pelo brasileiro Eduardo Barbier, que de lá abre espaço para os nossos Flávio Calazans, Marat & Masp, Henrique Magalhães, Gazy Andraus - colaborador do Areia Hostil - Darlan & Ledo e por aí vai. La Bouche Du Monde se apresentam num formatão atraente, com 54 páginas e capa colorida. E, como um típico fanzine, com histórias dos mais diversos gêneros. Escreva para o Eduardo que ele é gente finíssima e com certeza vai responder suas mensagens. E, certamente, peça para ele um exemplar da La Bouche Du Monde... Então, chorões de plantão, está na hora de trabalhar mais. Porque o underground não pára!