Areia Hostil entrevista

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Gerson Witte

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Por Lorde Lobo (07/08/05).

 

 

Areia Hostil: Como o Gerson já é de casa, vamos deixar que ele mesmo faça seu texto de introdução. Vai lá, Gerson!

 

Gerson Witte: Professor de Artes Visuais, Chargista, Artista Gráfico e Fotógrafo Amador. Trinta anos. Casado com Elizangela, pai da Bárbara e do Rodrigo. Em 2004 comecei a produzir histórias em quadrinhos que estão sendo publicadas no Areia Hostil e tento entender esta coisa do fanzine, do quadrinho como arte. O Areia Hostil quis me entrevistar pra saber um pouco mais da minha história, o que acho certo, porque nada surge pronto e acabado. Tudo tem o seu contexto. Ser entrevistado é uma coisa muito estranha, porque existe alguém que quer saber algo de você. É admitir que posso ter algo de especial a contar. É não estar anestesiado frente ao mundo. Espero que você, leitor, não se incomode com meus gritos durante sua leitura.

 

AH: Vamos começar a entrevista propriamente dita, esclarecendo uma coisa que as vezes te incomoda: Qual a pronúncia correta do teu nome?

 

Gerson Witte: Gerson Witte, oras! Witte é nome alemão, então o W tem som de "V", então pronuncia-se VITE. Maldita influência do imperialismo americano, o "W" ter som de "U". Pra evitar o Witte, alvo de controvérsias, também assino como Professor Gerson, então todos sabem quem é e não preciso explicar que não é uite nem uáite!

 

AH: Todos sabem que, salvo raras exceções, viver de quadrinhos no Brasil não é nada fácil e a maioria dos artistas acaba tendo que procurar um trabalho paralelo. Mas tu fostes escolher como profissão ser professor de artes... Por que isso? Masoquismo? Te pergunto isso porque também também sou arte educado mas, devido a baixa remuneração e reconhecimento profissional, não tenho atuado na área (apesar de achar lindo lecionar, é preciso pagar as contas). E então?

 

GW: Ser professor é uma desgraça, mas tem aquele poder todo em cima das pequenas crianças.  Nos 45 minutos de aula você manda e todos só obedecem. É o poder da ditadura absoluta nas mãos. Você tem a caneta vermelha que pode dar o dez ou reprovar!!!! Nada compensa mais que o brilho de pavor nos olhos das crianças antes de uma prova. Buahá-há-há (risada vilanesca). Não é masoquismo, é sadismo mesmo!!!! Hahahahahahahahahahahaha!
Se você não encontrou estre prazer, acaba fazendo outras coisas. Me tornei professor porque era a faculdade de Artes que eu tinha acesso na minha região, que é longe dos grandes centros, mas me encontrei na profissão, e procuro, como puderam ver, sempre me tornar um educador melhor. Hahahaha!
Mas as aulas não são minha principal fonte de recursos, o meu trabalho como artista gráfico na produção de cartazes, folders, jornais, criação de logotipos é o grosso da minha renda. Não vivo como quadrinhista porque isso não dá dinheiro. Só satisfação.

 

AH: Em que época da tua vida percebestes que conseguias controlar os riscos, a ponto de transformá-los em formas reconhecíveis?

 

GW: Difícil dizer. Sempre digo que sabia desenhar, mas que tinha gente que sabia muito mais do que eu, mas que foram ficando pelo caminho. Não adianta ter talento se não existe vocação. Vendo os primeiros desenhos que tenho guardado, reconheço uma capacidade de expressar emoções e isso facilita bastante, porque não precisa ser maravilhoso, mas sim ser capaz de passar uma mensagem, a idéia.  Na sétima série, junto com uns colegas, participei de um jornal estudantil que durou uns 3 números, onde fazia os desenhos de uma tira meio chata, o Cachorro Astolfo, "inspirado" descaradamente no Garfield, mas que pode ser considerado a primeira vez que fiz algo pros outros lerem. Nesta fase também participei de uns zines que um amigo estava fazendo, o Claudemir Todobom.

 

AH: Então, a emoção de ver algo impresso te pegou desde cedo!

 

GW: Não posso dizer que pegou muito, mas gostava muito de desenhar e de fazer desenho pegando no pé dos outros...
Mas deixa eu contar uma história. Na segunda série, participei de um concurso de cartazes! Desenho maravilhoso, mas era escandalosamente claro que não tinha sido eu, naquela idade, que tinha feito aquela bela obra (foi minha cunhada, artista). E me deram o segundo lugar!!!!! Com direito a medalhinha e tudo!!!! Não era justo, eu sabia disso. Até hoje aquilo me revolta, e acho que resolvi aprender a desenhar por causa disso e de outras coisas, como o dez que a minha mãe conseguiu pra mim, pintando uma caipira na primeira série. Virei artista porque eu queria fazer e tirar os meus dez, as minhas medalhas e deixar visível os meus sonhos! Como professor tento mostrar isso, a importância de reconhecer a arte nas crianças e deixar elas se expressarem sozinhas.

 

AH: Então podemos dizer que começastes a carreira pelo "lado negro da força"...

 

GW: Digamos que já comecei contestador, mas nunca batendo de frente. Sempre foi uma revolta interna. Arte é uma questão interna a ser resolvida.

 

AH: Já sabemos que iniciastes copiando as tiras do Garfield... Em quem mais te inspiravas? Quem são teus ídolos do traço?

 

GW: Olhava todos e não copiava ninguém. Mas teve dois artistas nacionais que gostava bastante quando era pequeno, Flávio e Vilmar. Aos 14 anos, trabalhando de contínuo no banco, tive uma iluminação espiritual quando vi os desenhos do Laerte num folheto do Sindicato. Aquilo é que era desenho. E mais: tinha na banca a revista Piratas do Tietê. Eu sei que achei um mestre que me guia até hoje, apesar de ter desenho muito diferente, eu sei que no meu subconsciente aquela forma de narrativa, de traço, de iconicidade, é o modelo. Tento alcançá-lo ...e quando consigo fujo desesperado, porque eu sei que tenho que seguir por caminhos próprios.

 

AH: Como foi a tua experiência com os fanzines?

 

GW: É desta época meu primeiro fanzine, Superaventuras de Rai, que durou 2 edições. Mas o Super-Rai hoje tem uma personalidade diferente. Percebi, na segunda edição, que estava num beco sem saída, e levou mais de 10 anos pra achar uma resposta ao personagem.

          

 

AH: Nos fala um pouco sobre este personagem, o Super-Rai.

 

GW: Ele é um cara muito mala! O mais chato do mundo. Imagine um chato com super-poderes!!! O cara é um porre, com amigos igualmente porres, o Zebu e o Kichute! Seus super-poderes não são muito diferentes: voa, tem força acima do normal, mas não é invulnerável, nem sai raios pelos olhos. O Super-Rai tinha distribuição garantida na empresa onde o meu irmão mais velho trabalhava. Ele cuidava destas coisas, porque eu sempre fui péssimo homem de negócios. Não sei vender.

 

AH: E o teu outro personagem, o Suicida, qual é a dele?

 

GW: Morrer! Pura e simplesmente morrer, mas morrer não é fácil e pode ser engraçado. Ele apareceu pela primeira vez na segunda edição de Superaventuras de Rai. Era pra ele aparecer apenas nesta edição e morrer. Mas ficou no meu subconsciente. Quando prometi um roteiro pro Samuel Bono, me veio ele na memória,  perfeito pra contracenar com o Bucha, um herói meio Macunaíma (esta HQ foi publicada na edição nº 12 da Areia Hostil, em sua versão impressa, em maio de 2005).

 

AH: Mas pelo que deu pra notar, parece que ficastes algum tempo um tanto afastado da produção de quadrinhos, visto que criastes estes personagens há um bom tempo e só agora os resgatastes. Qual o motivo deste intervalo? O que te fez voltar aos quadrinhos?

 

GW: "A Volta Dos Que Não Foram"! Na minha cabeça nunca tinha abandonado, sempre fazia alguma coisa ou outra, como charges pro jornal, ilustrações e quadrinhos institucionais... Então percebi que não tinha abandonado porque nunca havia realmente entrado de cabeça neste universo! Foi uma coisa muito chocante pra mim, e cheguei à conclusão que a única maneira de começar de verdade era pelo fanzine e produzir quadrinhos continuamente, procurando desenvolver a minha poética nesta área. Por sorte encontrei o Areia Hostil de portas (ou links) abertas, e assim o fiz.  E o principal motivo de fazer isso é porque existia dentro de mim inúmeras histórias e personagens me atormentando e precisava tirá-los de dentro da minha cabeça. O mérito então é do Suicida, da Satânica Professora de Química, do Super-Rai, que me obrigaram a deixá-los existir. Arte é isso, uma necessidade!

 

AH: Mas ao que parece, não fostes o único a retomar o fôlego e voltar a publicar, visto o grande números de quadrinistas que estão agitando a cena alternativa de HQs brasileiras ... Como vês o atual cenário das publicações impressas?

 

GW: Os quadrinhos necessitam de pioneiros, pessoas que vão com o peito e com a coragem enfrentar um mundo hostil e diferente, e se der certo, serão lembrados como aqueles que tiveram a visão certa. Aqueles que não tiverem a perseverança e a fé, desaparecerão. Acredito que agora, diferente das outras fases do quadrinho nacional, vive-se em busca de uma identidade, de um jeito próprio de contar as histórias. Outros tempos, o quadrinho era uma cópia do que existia no estrangeiro e, quando começavam as importações das histórias gringas, melhores e mais baratas, muito pouco sobrava da produção nacional e as pessoas choravam a falta de valorização... A única maneira de sobreviver é fazer um produto diferente, especial, pra que não possa ser substituído. Não é fácil. Mas é possível de ser feito.

 

AH: Muitas pessoas pregavam que a internet acabaria com as HQs impressas. Mas parece que não é bem isso que está acontecendo. Qual a tua opinião sobre a rede internacional de computadores em relação aos quadrinhos?

 

GW: Muito bom pra divulgar, mas é uma droga ler quadrinhos no computador. Quadrinho nasceu pra ser lido na cama, com as pernas pro ar, e principalmente no banheiro, naqueles momentos de profunda reflexão. Não tem como eu levar o meu PC pro banheiro. Enquanto esta situação existir, sempre existirá quadrinhos impressos. A internet é uma coisa muito boa pra unir os criadores de quadrinhos. Por exemplo, a história do Suicida, do Areia Hostil 12, foi escrita por mim, em SC, desenhada pelo Samuel Bono, de SP e editada pelo Lorde Lobo, no RS. Nunca vi os dois, mas produzimos quadrinhos juntos, graças à infernet! E você só está lendo esta entrevista por causa dela, então, reclamar pra quê? Vamos é aproveitar!!!

 

AH: Quem acompanha os fotologs do provedor Terra, tem notado uma certa movimentação de resistência, de luta contra as HQs estrangeiras e em prol das nacionais. Como te posicionas frente a este assunto?

 

GW: O brasileiro tem a triste mania de achar que pode fazer mangá, com estruturas de histórias americanas e ter a liberdade criativa de um europeu! Uma utopia que não funciona! Os brasileiros que desenham pro exterior são muito bons, se destacam na indústria, mas são operários, porque tiveram que se adaptar a moldes prontos e não possuem liberdade criativas! De certa forma, o sucesso como desenhista nos EUA do Marcelo Campos, Roger Cruz, Mike Deodato, entre outros, foi muito prejudicial ao quadrinho nacional, porque por 15 anos todos queriam desenhar como eles, no estilo Image Comics, com personagens americanos em cidades americanas, sempre num beco escuro com um herói anabolizado dando porrada em estupradores... As discussões nos fotologs são um reconhecimento deste absurdo e, apesar de alguns radicalismos, estão fazendo muito bem pra cabeça dos nossos criadores, essa busca por uma forma brasileira de escrever e desenhar quadrinhos.

 

AH: E falando em Fotolog Terra, o teu ( http://fotolog.terra.com.br/gerson ) é um dos mais visitados. Há uma fórmula para tanto sucesso?

 

GW: Faz sucesso? Hehehe! Tento sempre deixar atualizado e procuro valorizar o quadrinho nacional. Apenas por duas os três vezes mostrei algum personagem estrangeiro. Eu penso que, o tempo que perderia desenhando um Batman, Wolverine ou Super-Homem, eu posso desenhar o Bucha, Topman, Plasma, Raio Negro, Velta, Mulher Estupenda Cronium, Conversor, Brasileiro, Jade, Pacificadora, Invictos, Coelho Puto, Urubu-do-Pescoço-Pelado, Ataman, Luz, etc, etc, etc. Me sinto muito mais realizado e não estou fazendo propaganda de graça pra uma corporação estrangeira ganhar mais dinheiro, como a Warner.

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  Mulher-Estupenda                        Plasma                                     Topman                         Coelho Puto            Preceptor (dos Invictos)                Jade         

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Não sou radical, eventualmente pode aparecer alguma coisa alienígena lá, mas me divirto muito mais desenhando os personagens dos amigos, dando a minha visão pra produção deles. Se existe alguma fórmula pra que as pessoas gostem, é fazer isto com muito cuidado e respeito, afinal, são criações sempre muito queridas, e com isto não se brinca. O arte pode ter bom-humor, mas nunca pode ridicularizar.

 

AH: E quanto ao futuro, quais são os teus planos?

 
GW: Pro futuro imediato, terminar minha monografia em Arte-Educação, onde vou fazer uma proposta de ensino de histórias em quadrinhos nas aulas de Arte, por achar que é uma linguagem que permite, como nenhuma outra, que o jovem diga aquilo que sempre quis dizer, mas ninguém deixa. Vou explorar o universo dos fanzines como um exemplo do quadrinhos como poética, como fruição e como produção artística. Também continuar as minhas histórias da Satânica Professora de Química, do Super-Rai e Suicida. Tenho uma história do Val pra desenhar, com roteiro do Vagner Francisco. O Law Tissot também me prometeu um roteiro pra ilustrar da Cidade Cyber. A idéia é estar produzindo quadrinhos, porque ainda tenho muitas histórias procurando fugir da minha cabeça.

 

AH: Bem, Gerson, muito obrigado pela entrevista! O espaço final é teu, podes deixar um recado pros nossos leitores e também pra quem tá pensando em entrar pro mundo dos quadrinhos!

 

GW: Produzam quadrinhos. Peguem uma folha de papel sulfite, façam uns quadrinhos no papel e façam uma história. Contem aquilo que revolta, que vocês querem que o mundo saiba mas que ninguém escuta. Se rebelem, não aceitem que lhe deixem sem voz! Quadrinho pode ter bom humor, mas não precisa apenas engraçadinho ou infantil como querem que você acredite. Tem um monte de coisas que só você, leitor, sabe que está errado neste mundo, então use os quadrinhos pra mostrar isso.
Então, como leitor, não vão mais aceitar uma história de qualquer jeito, só porque o personagem é gringo e rende milhões de franquia pra corporações estrangeiras. Irá procurar artistas que se revoltaram como vocês e poderão gritar juntos, e mais e mais, até que alguém algum dia escute! Não deixe mais que te ignorem!

Abraços e sucesso a todos.

Cidade Cyber (de Law Tissot),

na visão de Gerson Witte.