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Areia Hostil entrevista
O
Lorde Lobo
O
Por
Sérgio Chaves (17/05/06)
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Esta entrevista com Lorde Lobo
foi
originalmente publicada na edição número 18
do
fanzine Justiça Eterna (capa ao
lado), editado
por Sérgio Chaves, que gentilmente
nos
concedeu o direito de republicá-la neste
espaço.
Isso só demonstra a integração e
colaboração
mútua existente entre os editores
independentes nacionais.
Desde já agradecemos ao Sérgio por toda
a atenção, carinho e respeito a nós
dedicados.
Para obter mais informações sobre
o Justiça Eterna clique
aqui.
Agora, fiquem com a entrevista
e conheçam um pouco mais sobre o
editor do Estúdio Areia Hostil. |
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Sérgio
Chaves: Por que "Lorde Lobo"?
Lorde Lobo: Putz...
Esta é uma história muuuuito longa! Mas vou resumir aqui:
Lá no primeiro grau,
ganhei o apelido de “Lobisomem” (foi durante as aulas de Educação Física
já que, a cada ponto no jogo de vôlei, eu costumava comemorar com um “YAAHHHUUUUUUU!”.
Acho que o pessoal confundiu o grito com um uivo, sei lá...). Com o tempo,
o apelido diminuiu para “Lobo”...
Mas foi entre os 16 e 18
anos, quando trabalhei no Banco do Brasil que um colega de trabalho comentou:
“Agora que tu tá trabalhando aqui no BB, não és mais um simples Lobo! Passas a
ser um “Lorde Lobo”, por causa do salário que nos pagam!”... Bem, a grana nem
era lá grande coisa, mas gostei tanto do som dos dois “L” que acabei adotando
como nome artístico. Acho que tem dado certo!
SC:
Você começou muito
cedo a produzir. Qual foi, e hoje qual é, a visão de sua família a
respeito?
LL:
Sim, comecei muito
cedo... Lembro que comecei a desenhar aos quatro ou cinco anos. Minha
família sempre me incentivou! E quando fiquei mais velho, quando chegou o
momento de optar por uma faculdade e eu disse que queria cursar Educação
Artística – Habilitação Artes Plásticas, também contei com o apoio
familiar! Concluí o curso em 1999.
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SC:
Quais foram seus
primeiros trabalhos?
LL:
Meus primeiros
desenhos eram reproduções dos personagens da Turma da Mônica (minha
principal influência gráfica), Disney e Recruta Zero. Inclusive, foi
através dos gibis do Zero que tive minhas primeiras noções do quão
trabalhoso era fazer uma HQ, pois além dos personagens, eu chegava a
copiar uma HQ inteirinha, página por página!
Mas, falando por um
lado profissional, minha carreira começou no ano de 1992, quando comecei a
produzir charges e ilustrações para um jornal de minha cidade. Desde
então, sempre me mantive publicando em jornais, revistas ou projetos
próprios!
SC:
E qual gênero mais o agrada
hoje, como leitor?
LL: Bem, como
leitor, o que mais me agrada são mesmo os super-heróis! Parece que hoje em dia o
pessoal prefere esconder que curte este gênero! Preferem dizer que não lêem...
mas não tenho problema algum em admitir que curto super-heróis com colantes! E
tem muita gente que lê, sim! O Brasil é o segundo maior “consumidor” de HQs de
super-heróis! E eu faço parte sim desta estatística!
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Primeiro desenho de Lorde
Lobo, guardado por sua
mãe, dona Marilene. |
O que não pode existir é
preconceito contra qualquer outro tipo de quadrinhos! Leio super-heróis! Mas
leio também outras coisas! Também curto terror, erótico, drama e, é claro humor!
Sendo HQ, é comigo mesmo!
SC:
Fale-nos sobre sua
experiência com o jornal Chargeta.
LL:
Ah, sim! O Chargeta foi um
projeto muito legal! Resolvi criá-lo porque em 1995 eu havia saído do jornal
onde publicava... Não suportei por muito tempo o fato de não estar publicando
e resolvi então criar o meu próprio espaço! Pensei num jornal só de charges e
tiras onde, além de mim, outros artistas poderiam mostrar seus trabalhos!
Assim nasceu o Chargeta!
E este jornal foi muito
bem aceito! Tanto que durou quase dois anos, tendo uma periodicidade mensal e
sendo distribuído gratuitamente nos patrocinadores. Até hoje algumas pessoas
perguntam o porquê de eu ter parado o Chargeta! Mas como na época eu estava na
faculdade e ele me tomava quase que o tempo todo (deixei de ir a muitas
excursões por causa deste jornalzinho), acabei deixando o projeto de lado.
Quem sabe um dia eu volte a publicá-lo?

Algumas capas do jornal Chargeta, dedicado ao
hurmor gráfico
SC:
Como surgiu a proposta do
Areia Hostil?
LL:
Sendo breve, o Areia Hostil
nasceu como resultado de um curso de HQ ministrado por mim e pelo meu sócio, o
quadrinhista Law Tissot... Na época pensamos: “De que vale ensinar este pessoal
a fazer HQs se eles não tiverem onde publicar?”. Resolvemos criar, sem muitas
pretensões, um fanzine onde os alunos de maior destaque poderiam ter suas HQs
impressas... O fanzine deu tão certo que acabou se tornando o nosso principal
produto! A primeira edição foi em fevereiro de 2001 e, de lá para cá, só temos
evoluído! Hoje, já contamos até com uma capa impressa em offset!

SC:
Qual a periodicidade que
você procura manter (se é que têm essa pretensão)?
LL:
Sim, tenho sim esta
pretensão... na verdade, já é uma prática da AH há um bom tempo! Até a 4ª
edição, a periodicidade era um tanto solta, sem uma data certa de lançamento.
Mas desde o 5º número mantemos um intervalo de 4 meses entre as edições da Areia
Hostil. Hoje, sempre nos meses de janeiro, maio e setembro de cada ano tem uma
AH nova na rua!
SC:
Quando surgiu o super-herói
Pátria? Como ele era?
LL:
O Pátria era uma espécie de
resposta ao Capitão América: Um super-soldado brasileiro a serviço do exército
nacional... mas a idéia era tão fajuta (não por se tratar de um super-herói
nacional, mas por ser um plágio óbvio ao personagem norte-americano), que
resolvi deixar de lado... Ele nem era o meu principal personagem. Na verdade,
nem existia um personagem principal! Conforme eu ia pensando num personagem
novo, os outros ficavam meio que abandonados.

SC:
Como foi o processo de
mutação, até chegar no "invencível Topman"?
LL:
Como eu estava dizendo na
resposta anterior, o personagem ficou engavetado por muitos anos... Até o dia em
que percebi que, na verdade, eu era um cartunista! A minha veia cômica sempre
foi mais forte! Resolvi então adaptar todos os meus personagens para um estilo
mais cômico.
Usei os dois gêneros de
quadrinhos que mais gosto, super-herói e humor, para desenvolver o meu trabalho.
Como o Pátria era um personagem que se vestia com a bandeira nacional, mas que
no fundo não passava de um plágio de um herói gringo, resolvi fazer dele o
personagem principal desta minha nova investida nas HQs.
Os artistas, em sua maioria,
quando pensam em um super-herói brasileiro de humor, pensam logo num brasileiro
comum, desempregado, sem poderes algum, tentando ser um super-herói... Eu fiz
dele um cara realmente poderoso, mas extremamente ingênuo. Mas toda esta origem do
Topman é contada numa HQ que está prontinha para ser publicada desde 1999! Esta
HQ foi o meu trabalho de graduação da faculdade de Artes e se chama “A
(Verdadeira) Origem do Topman”. Pretendo lançar em breve! Nesta HQ, explico
até o porquê do nome do personagem ter mudado de Pátria para Topman...
SC:
Quando
você entrou no universo dos
quadrinhos, literalmente?
LL:
Falas do Lorde Lobo, que vez
por outra aparece nas histórias do Topman, não? Bem... ele (eu?) surgiu por
acaso, numa brincadeira! Foi numa das primeiras tiras do Top que foram
publicadas... nesta tira, aparecia um daqueles profetas do apocalipse dizendo: “O
mundo vai acabar! O fim está chegando! O próprio criador me revelou isso!”.
Então, no segundo quadro da tira, o Top arromba a porta do meu estúdio e
pergunta: “Pô, Lorde Lobo, por que tu foi dizer uma coisa dessas pro cara?!”
Depois desta, vieram muitas
outras tiras onde eu aparecia contracenando com meus personagens.
Mas quando passei a
trabalhar com o conceito do Topverso, mudei um pouco a maneira de retratar o
Lorde Lobo... Se antes ele era eu nas tiras do meu personagem, agora ele é um
outro cara! É aquela velha idéia dos quadrinhos, de alguém existindo em mais de
uma dimensão, ou seja, já sabemos que existem dois “Lorde Lobo”! Um é o que tu
tá entrevistando e o outro é o que mora no Topverso! Quem sabe um dia eu não me
encontre com o Lorde de lá?
SC:
Quais outros personagens incluem-se no "Topverso"?
LL: Antes, deixa eu
dizer que, depois que adaptei meus personagens para um estilo de humor, tudo se
resolveu! Se antes meus personagens eram soltos, passaram a fazer parte de um
universo definido! Foi quando resolvi batizar este universo de “Topverso”, por
ser o Topman o personagem principal!
Como disse, no início, os
personagens do Topverso eram os meus antigos super-heróis sérios adaptados ao
humor... hoje, quando os crio, eles já nascem neste estilo!
Além do Topman, tenho muitos
outros personagens! São mais de oitenta, entre heróis, vilões e coadjuvantes!
Não tenho trabalhado com todos por causa dos registros, pois alguns ainda não
foram registrados... Os que os leitores conhecem - ou podem conhecer - são:
Topman, Lorde Lobo, Quarteto Supimpa, Os Prophanos, eX-man. Estes podem ser
vistos na revista ou no site da Areia Hostil (
www.areiahostil.com.br ). Os outros, por enquanto, ficam
guardadinhos...
SC:
O que acha dos atuais quadrinhos nacionais?
LL: Acho que são
injustiçados! Tem muita coisa boa por aí! Muita coisa boa mesmo!
Claro que nem tudo é bom,
mas se ainda não é, é porque está em fase de desenvolvimento!
Tem muita gente trabalhando
sério por este Brasil! Tem o pessoal do Manicomics, da Brado Retumbante, da Kaos
e tantos e tantos outros...
Acho que os quadrinhos
nacionais refletem o que somos: uma mistura de cores, raças, opiniões, traços,
estilos... sem esta de só ter espaço para um gênero ser trabalhado! Isso é o
mais bacana!
Artistas competentes não
faltam neste imenso país! Para conhecê-los, basta procurar por um destes títulos
de revistas independentes que citei!
SC:
Qual o caminho a ser percorrido, na sua opinião, para
conquistarmos espaço no mercado nacional?
LL: Creio que o
caminho é este que já vem sendo percorrido: o de luta através dos fanzines!
Falta muita coisa! Uma
destas coisas é uma política de valorização dos artistas e dos quadrinhos
nacionais! Com raríssimas exceções, o que temos aqui no Brasil, nem podemos
chamar de editoras, mas sim de republicadoras!
Os fanzines têm sido a
resposta para todo este sistema opressor, mas no meu modo de ver as coisas,
precisamos de uma ação política mesmo! Precisamos nos organizar mais e exigir
material nacional em nossas bancas! Quem sabe uma lei obrigando as editoras a
publicarem uma porcentagem de material produzido por aqui? Mas aí surge um outro
problema, o de ter material nacional nas bancas, mas não ter comprador! O leitor
também precisa fazer a sua parte!
Eu faço a minha! Além de
produzir quadrinhos, compro tudo que é nacional que encontro nas bancas!
Mas, por hora, o caminho é
mesmo o de luta! E tanto os fanzines quanto os e-zines são as nossas armas!!!
SC:
Você apóia a idéia de uma lei de cotas para a publicação de
HQs nacionais?
LL: Sim, sou
favorável a esta idéia, sim! Com raras exceções, aqui no Brasil, poucas empresas
podem ser chamadas de ‘editoras’, pois estas estão mais para ‘republicadoras’!
Afinal de contas, o que elas fazem é apenas traduzir e republicar material
importado!
Quero deixar bem claro que
não sou contra a publicação de histórias gringas - inclusive, sou um grande
colecionador de HQs de super-heróis - mas acho que falta respeito e incentivo
aos quadrinhistas nacionais!
Dizem que por aqui, poucos
são os produtos de qualidade, mas isso é uma tremenda mentira!!! Mas se nem tudo
é bom, é produzindo, é publicando que se vai evoluindo! Ou as HQs dos demais
países sempre foram boas? Ou só o que se produz lá fora é bom? Lembro que há
alguns anos atrás, a Editora Escala lançou um dos melhores projetos lançados até
agora: o Graphic Talents (por que não “Talentos Gráficos”?)que, a cada
mês, publicava um gibi - em tamanho formatinho - de um artista diferente. Pena
que não teve o devido apoio dos leitores e o projeto acabou sendo cancelado...
Mas sou sim a favor de uma
lei que venha apoiar a produção nacional! Nem precisaria ser por meio de cotas,
mas quem sabe, por um esquema de incentivo fiscal às editoras que publicarem
material nacional! Acho que isso seria mais simpático do que uma imposição
através de cotas... se nossos governantes quiserem, podem ajudar muito a se
achar uma solução para esta sede de publicação dos quadrinistas brasileiros!
Mas alguma coisa precisa ser
feita! Nossos artistas estão a mil, cheios de boas idéias!
SC:
Certa vez teve um cara que me disse (sobre a extinta revista
HQ, da editora Escala): "Brasileiro? Xiii... nem vale a pena ler!..." E o que
você diz pra esse tipo de pessoa, que não acredita no potencial dos artistas
brasileiros?
LL: Nada! Nem merece
que eu perca meu tempo com ele! É o tipo de gente da qual sinto pena! E nada que
eu, ou qualquer outra pessoa disser, vai mudar sua opinião! A ignorância é um
problema do qual a própria pessoa tem que estar disposta a se curar!
Mas fico tranqüilo porque
isso tem salvação! Quando eu era bem mais novo – entrando na adolescência –
lembro de ter dito algo parecido... depois me arrependi tanto de ter dito algo
tão idiota, que fui buscar uma cura: os fanzines!
E como já disse antes, hoje
não tenho preconceito para com nenhuma espécie de arte seqüencial (confesso que
demorei um pouco pra aceitar o mangá, mas já faz um bom tempo aprendi a
respeitar os quadrinhos japoneses. E sabe como foi isso? Através dos mangás
feito por brasileiros feras que trabalham com este estilo nipônico!), mas que
não abro mão do quadrinho nacional, ah, não abro mesmo!
Gasto boa parte do meu
salário com gibis! Compro sim os traduzidos da Marvel, DC e Image, mas também
compro tudo o que é nacional!!! Tenho a coleção completa dos Combo Rangers
(só depois fui descobrir que o Fábio Yabu é contra os fanzines, através de um
texto dele mesmo!), tenho tudo que saiu pela Graphic Talents (Ed.
Escala), tô comprando a Ronin Soul (por que não batizaram a série de
“Alma Ronin”?) e até os Guerreiros da Tempestade (ND Comics). Isso sem
falar que já conto com uma boa fanzinoteca pessoal!
É como eu disse, ignorância
tem cura, e eu já me curei!!! Hê! Hê! Hê!
SC:
Bom, amigo LL, agora o espaço é teu.
LL: Antes de qualquer
coisa, quero te agradecer, Sérgio: Obrigado por teres aberto este importante
espaço do teu zine* para mim! Nem sei se sou merecedor de tanto!
Vou finalizar com mais uma
declaração de amor aos verdadeiros representantes dos quadrinhos nacionais, os
fanzines! Foi através dos zines que conheci muita gente boa, que divide comigo
os mesmos sonhos de ver a produção nacional viva: Law Tissot (meu melhor amigo e
sócio da Areia Hostil), Vagner Francisco e Gerson Witte (outros grandes amigos
que passaram a ser Conselheiros Editoriais da AH), JJ Marreiro (editor do
Manicomics), Léo Santana (editor da Brado Retumbante), Emir Ribeiro, Edu Manzano
e tantos e tantos outros nomes que eu precisaria de mais duas páginas só para
citar todo mundo! Ah, não poderia esquecer de ti, Sérgio Chaves, outro idealista
que tanto respeito e admiro!
Um grande abraço a todos!.
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( * )
lembramos novamente que esta entrevista foi
publicada originalmente na edição nº 18 do fanzine Justiça Eterna. |









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Capas de fanzines. |
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